Inefável Solilóquio


Por que um blog?

Pois não é à toa. 

Os pará-brisas faziam vapt vupt vapt vupt e os olhos de Maya pareciam os seguir.  Aquela massa motorizada nos protegia da fina chuva que cobria as janelas como pequenos diamantes tornando-as translúcidas, como a alma da motorista. E nos levava de volta para casa. Um dia comum, assim caótico como todos da metrópole, nos conduzia pela noite e nos embebia de filosofia feita em faróis vermelhos.

“A arte é o meio de encontro ao outro”. Estava cansado demais para responder ao pensamento mayano sobre a arte. Tínhamos passado as horas anteriores envoltos de damascos, amêndoas, queijos, champanhes e vinhos de nomes cheios de us e ípsilons que tinham como função alterar nossa percepção em comemoração à abertura de uma exposição de uma amiga nossa. Uma vernissage! Que boa oportunidade para encher a pança!

Uma vez que minha percepção estava por demais alterada, minha companheira tomou às rédeas e se propôs a nos guiar por São Paulo em busca do nosso pequeno becobarracafofo. O desejo de transformar a máquina motorizada em nosso becobarracafofo irritou Maya. Mas o ar quente formado lá dentro impelia meus impulsos a se manifestarem… E Maya estava tão bonita… Nesses momentos em que emergiam obstáculos entre nós eram o de maior (trans)lucidez de Maya. Hermética, confusa, sensível ou apenas sem o que alguns denominam “simancol”, ela declamava – não dizia, pois dizer é vulgar – suas opiniões sobre a vida, a sociedade, os animais, os pratos que quebram, a terra que treme, o diabo a quatro… E aquela noite foi a arte.

“Quando eu empresto um livro para alguém, dou um cd gravado, convido para um cinema, não é à toa. Tem um propósito! Estou apenas absorvendo a arte de ser humano, buscando uma interpretação pessoal e transmitindo uma mensagem para alguém querido. É como doar uma parte de mim. Como espalhar sementes…”. Essas sementes um dia germinaram na minha pessoa circunspecta. Mal esperava eu que Maya estivesse deliberadamente criando um vínculo comigo no dia em que me telefonou em uma quinta-feira de verão para ir ao cinema. Os raios de sol estavam estupefatos e diziam que eu era um traidor por me enfurnar em uma sala escura quando poderia, através de seus serviços de estrela maior, suar a luminosidade entre multidões na extensão das areias e da maresia.

Ah, sim… Germinaram bem, oferecendo para ambos uma boa colheita. Entrei também na brincadeira. Procurávamos nossas essências nas escritas de desconhecidos e passávamos alguns minutos de comunicação intensa. O meu eu, o eu dela, os nossos eus na sociedade, o si para si, o outro para o outro, o si do outro dentro de mim, dentro dela e dentro do universo e as temperaturas se elevavam e os pêlos eram nervos, pequenos paraísos escondidos em recônditos cerebrais…

“Uma música, por exemplo. Escuto como se a voz daquele que canta fosse minha consciência mais calada que, por não agüentar mais, explode em melodia. Umas linhas quaisquer podem se transformar no manifesto da minha vida. É que na verdade todos somos iguais e não queremos admitir nossas fraquezas. Melhor deixar que outros façam”. Essa hipótese não dava nenhuma margem a testes experimentais, especialmente finitos, que pudessem a falsear. Quem disse que Maya estava fazendo ciência? Ainda por cima a ciência dura, dogmática, a que tem os olhos vendados para a alteridade.

O Outro. O Outro dela era o mundo. E não importava as dificuldades que encontrava para enfrentar o Outro. Estava ela lá com os ouvidos postos, os olhos arregalados, as mãos abertas e a mente vaga… Emprestei-lhe um livro que ela tinha me pedido um dia desses e me disse, com uma desprentensão supostamente ensaiada, que devoraria o mais rapidamente possível, pois estava ansiosa para conversar sobre as tais essências comigo. Em um mês, estava com o livro e Maya em minhas mãos. Com um sorriso sereno afirmou que tinha ficado encantada com o pequeno pedaço de mim que tinha emprestado para ela… Que agora tinha um pouco mais do Outro em sua transitoriedade… Um punhado de sal daqueles que você coloca no arroz. Insignificante na quantidade, significante no resultado.

 

 

Juliana dos S. de A. Sampaio


2 Comentários so far
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Fico muito lisonjeado em ver meu blog entre seus links.
Fico feliz que tenha voltado a escrever.
Fico por aqui.
Beijos

Comentário por Vítor Oliveira

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Comentário por Hoitralomar




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