Inefável Solilóquio


Tão Raro Redespertar no Turbilhão da Modernidade
23 agosto , 2007, 19:48
Filed under: Conto, Jornalismo

A ausência e o silêncio inundavam a rua. Os néons apagados, o lixo da noite anterior contemplados pelos ainda fracos raios de sol. A Augusta às 9 da manhã é como um deserto de concreto: sufocantemente vazio. Isso trazia à tona lembranças de uma adolescência equivocada da moça, mas ela somente estava preocupada em resolver suas pendências particulares, como arranjar um bilhete único no posto da SPTrans mais próximo.

Resolvida a questão, a jovem coloca os pés na velha Augusta e ansiosamente procura atravessar para o outro lado. É necessário pegar qualquer ônibus que suba a rua o mais rapidamente possível. Hoje ainda tem aula de tarde, de noite, uma social no campus. Farol vermelho. Atravessar na faixa, fazer tudo correto. Ah, essa obsessão pela perfeição. Corpo, mente, alma, intelecto e quantas leis questionáveis feitas pelas mãos dos homens. Um olhar para esquerda, outro para direita, uma visão do ônibus e uma senhora a esticar os dedos.

Somente o branco. O nada.

Com os olhos abertos e a sensação de que estava aconchegada na sua cama, a moça viu que o dia já tinha começado, que ainda estava na Augusta. O ônibus não estava mais lá, e sim uma ambulância, pessoas ao redor e muito falatório. Foi uma moto. As pessoas a movimentaram. Vamos levá-la à Santa Casa.

Onde dói? Aperta aqui, ali. Onde mais? Poderia dizer que o pedaço, ou o todo, que mais lhe doía não tinha sido atropelado. Já estava em ferida aberta há semanas. Isso é assunto íntimo. E chato. Quem estaria interessado? Minha bolsa, murmurou a moça. Uma desacordada poderia ter sido um alvo de roubo dos mais esperados, tão fácil quanto uma moedinha que se encontra por aí. Tudo em seu devido lugar, na sua devida função. Intocável.

Devaneava com sua mente semidesperta e tentava descobrir, em vão, quem a teria socorrido. Um anônimo que limpava de dia o que funciona à noite? Uma jovem que tinha virado a noite trabalhando? Uma qualquer que também precisava de seu bilhete único? Outro que, por vias do acaso, estava lá na hora do acidente?

Somente agora tinha a certeza de que o ser humano ainda se sensibiliza com a insegurança da vida alheia. A violência da máquina tinha sido forte o suficiente para quebrar alguns ossos da face, roxear as pernas e manipular as memórias. Já a solidariedade soprou-lhe ao ouvido que a humanidade não está tão perdida como se lê nos jornais.

Porém, 22 anos não oferecia um grande conjunto de experiências para que não mais ficasse surpreendida. Alguns sustos ainda apareciam incrivelmente fantásticos. Diriam alguns que é infantilidade espantar-se com esses fatos tão comuns da vida. Outros, com os quais a jovem concordaria, diriam que a ausência de sensibilidade ao inesperado retira toda a poética e o humano do estar no mundo. Não é espantoso sobreviver a um atropelamento e ainda ser resgatada sem que ninguém se aproveitasse de sua fraqueza?

– Você não se lembra de nada? Nada?
– Não.
– Nem do impacto?
– Não. Só acordei sendo levada para dentro da ambulância do Resgate.
– As pessoas socorreram você?
– É. A rua tava vazia, mas alguém deve ter ligado…

Chega outra colega, preocupada e curiosa. Quer saber mais sobre como é a sensação de ter uma moto em conflito com seu corpo, como é experimentar uma massa de pessoas desconhecidas olhando para você estatelada no asfalto.

– Você está melhor?
– Estou. Ainda está um pouco inchado. São os pinos.
– Sabe que meu maior medo em ser atropelada é alguém pegar minhas coisas!
– Eu também tive essa preocupação quando entrei na ambulância. “Cadê minha bolsa?”, eu perguntei. Verifiquei se minha chave e o bilhete que tinha acabado de validar estavam nos bolsos. Já que eu me sentia bem, eu queria saber se tudo estava lá. E estava. Um pouco absurdo. Mas você sabe que às vezes a gente esquece que as pessoas também ajudam.

Certa da convicção de que a curiosidade é um motor sensível da humanidade, já que tantos curiosos pareceram solidários a ela, a jovem, recuperada com o avanço da ciência, com alguns “parafusos” a mais na cabeça, procura os detalhes que a colocariam entre os normais da vida metropolitana. Escarafunchando no oceano de informações da Internet, ela descobre que atropelamento na cidade de São Paulo é fato cotidiano, sendo a Rua Augusta palco para vários. Mais comum ainda é haver pessoas que têm o instinto de sobrevivência da espécie humana tocado e conseguem discar 193 sem hesitar.

Um motoboy que a atropelou por imprudência, pois devia entregar a encomenda pra ontem. Foi isso. Fato. Um passante que esperava o ônibus em direção ao trabalho com um celular na mão pago em pequenas prestações. Bem provável. Um bombeiro do Resgate que prestou assistência à moça atropelada fazendo o que mais gosta. Não creio… Que maravilha! Uma enfermeira que lhe retirou os pertences do corpo e já era avisada de outro atropelamento na região. Coisas que acontecem… Eram os personagens da sua história, que flutuavam harmonicamente com as imagens de uma Augusta do século XXI. Personagens que não tinham rostos definidos ou vozes perceptíveis. Restavam-lhes suas atitudes. Restar. O verbo pernicioso passa na mente da moça. Restar… O que cada um fez por ela, uma desconhecida, o número 35.520.8 e alguma coisa a mais marcado no RG, não foi como uma migalha guardada na individualidade. Estariam fazendo o que se deve? Refletiu e pensou chegar à conclusão, mas não chegou. Estava com um inchaço na face que impedia o fluxo de pensamentos. Doía demais. E a dor era pior quando via que à sua volta somente outros em situações similares. A dor humana, física, é uma covardia…

A rua de nome de mulher: Augusta. Três mil e oito metros de extensão que influenciaram a vida sócio-cultural da época em que sua mãe era uma menina, uma moça e uma jovem adulta, ou seja, das décadas de 1950 a 1970. Um intervalo de decadência com a crise dos anos 80 e uma reflorescência nos fins da década de 90. Verdade! Bem no momento que despertava a adolescência e descobria as maravilhas que se escondiam e se revelavam naquela paralela da Paulista, que ia do centro até os jardins! Uau! Era parte de sua vida… E também dos motoboys, dos bombeiros… Fazendo parte da história de São Paulo, a Augusta também fez parte da história da moça. Poderíamos dizer que até antes mesmo dela nascer, quando sua mãe ia para o templo da moda e seu pai, comprar livros de literatura, subversiva ou não.

Quando pequena, na época em que a rua não era mais esplendorosa, sua mãe a tinha levado para passear pelos arredores. Contar as estórias de quando era mocinha e comprava calças Levi’s para depois amaciar no box do banheiro. Lembrou de uma música que tinha ouvido em algum lugar. Que falava de um tal que podia descer a Augusta a 120 km por hora! Olhou para o asfalto até onde o horizonte oferecia para seus olhos poderem ver. Impossível! Esse bando de carros, amontoados, parados, buzinando… Como pode alguém descer essa rua a 120? Só em música mesmo. Sua mãe disse que naquela época não tinha tantos carros. Nem tanta gente. Era mais vazio e as pessoas, menos neuróticas. 

Vamos para o outro lado? O Outro Lado era proibido. Saberia a jovem, quando crescida, que o outro lado aglutinava alguns marginalizados. Boates, prostíbulos, bebedeira, devassidão… Roqueiros também. Ela assumia para a mãe que freqüentava uma casa que ficava naquele outro lado maldito da Augusta por diversão de ouvir rock. Alguns que queriam inovar tinham aberto um bar alternativo por aquelas bandas. Jovens de roupas excêntricas, cabelos diversificados constituíam a massa homogênea que enfeitava a rua. Bem nascidos faziam o contraste de suas peles de bebê com os rostos cansados das meninas de saias míni e saltos exorbitantemente altos.

Sua curiosidade se alternava entre a velocidade do novíssimo meio de comunicação e a da moto que lhe deu uma história. Descobriu que a Augusta, rua velha de guerra, via de conexão para diversos lados da cidade, estava sendo invadida pela disseminação de motoboys. Assim como toda a São Paulo… Essas motos, pensava, são como besouros atarefados do asfalto, não têm pudores no trânsito. São domadas por seres humanos habitantes da periferia urbana, que, por sua vez, são comandados por outros humanos, comandados pelo imediatismo da nova ordem econômica mundial. Acreditaria que era por um Brasil grande, dinâmico, atualizado? Ah, essas coisas! Coisas essas que diriam estes últimos humanos no comando ignorando as 9.536 internações realizadas por causa de acidentes de moto ou as 380 mortes de motoqueiros registradas no ano de 2006.

Não, não. Não queremos aqui coisificar o trânsito! Dados, estatísticas, tabelas… A moça sabia que o trânsito é uma relação entre sujeitos, entre humanos que guiam suas máquinas e disputam um espaço limitado. Beira ao ridículo pensar que foi atropelada por uma moto. Mas era o que dizia. Fui atropelada por uma moto. Bizarro. Pensou mais tarde. Fui atropelada por um motoboy. Exato. Expressão um tanto quanto preconceituosa. Mas ele atravessou no farol vermelho! Continua imputando a culpa no motoboy. A questão é simples. Ele estava… Como se diz? Fazendo seu trabalhado. E o trabalho, como sabemos, é algo sagrado, especialmente quando vemos as dificuldades de se arranjar emprego nesses dias… Uma luta pela sobrevivência.

Não surpreendentemente, a moça descobre que o trabalho do Resgate pelos bombeiros foi fundado exatamente no momento em que São Paulo estava já se acostumando a acordar com os zunidos das motos entre os vãos dos carros. Um, dois, cinco, dez passam e uma infração, um farol vermelho, um acidente a mais. Explosão das motos no final dos anos 1990. Já 1994, um decreto consolida o trabalho do Resgate, que tem entre suas funções oferecer os primeiros atendimentos médicos àqueles que sofrem desse mal da sociedade moderna: o atropelamento.

Enquanto isso, os motoboys cumprem sua função no processo de produção de mercadorias e serviços, ainda que incompreendidos. A própria vítima, a moça atropelada em uma esquina qualquer da Rua Augusta, se vê portadora desse preconceito. Cada moto agora é uma referência ao seu trauma, uma volta ao passado de dores e macas, algumas interjeições despudoradas. Mas agora ela entende… Compreende a complexidade do problema. Os motoboys já são parte da essência paulista, imprescindíveis para a vida de uma metrópole. São o sangue que deve percorrer as veias urbanas em um certa pulsação, em uma certa velocidade… Neste caso, o mais rápido que a máquina agüentar. Porém, são também sujeitos e objetos da maior parte dos acidentes de trânsito da cidade. Com o rosto contraído, as mãos tocando a pele que reveste aqueles pinos do rosto, a moça sabe que os motoboys são uma nova classe de trabalhadores gerada a partir dessa explosão da malha urbana e da economia que se movimenta em direção à acumulação incessante. Uma classe pouco regulamentada, com pouca legitimação da sociedade e tão necessária. Ninguém quer deixar seus carros em casa. Nem atrasar os negócios – negócios, negócios, o resto à parte -, por causa de envio de documentos que não chegam aos seus fins.

A moça continua na sua curiosidade implacável. Descobre que não é a única que chegou em conclusões desse naipe. O blog, esse meio novo de comunicação popular, tinha um nome comprido e chama sua atenção. Quem o comanda é um ex-motoboy que vê na sua antiga profissão os problemas da vida paulista e busca soluções possíveis. Uma desejosa harmonia entre os besouros atarefados e seu habitat natural.

O blog é veículo para compartilhar o conhecimento. Interessantíssimo. Baseado no Grupo de Estudo dos Profissionais Motociclistas , o blog demonstra a importância do motoboy para a vivacidade de São Paulo. Vivacidade, cidade viva. São Paulo precisa desses motoboys que arriscam a permanência sobre a Terra para que tudo saia além do imediato. Artigos de jornais são colocados na Internet e expõem em números e relatos a imprudência, a guerra que ocorre no trânsito. Mais do que chocada, assim a jovem fecha a janela aberta do computador. Reabre. Lê um pouco mais, interessa-se pelo assunto. Os motoboys são uma nova classe social que emerge no turbilhão da modernidade. Surgem como se houvesse um aparente sem querer no ato. Uma improvisação. Pensa: uma necessidade para aqueles que enviam documentos e para os que precisam de um emprego. E assim o blog aparecia na tela: http://stoa.usp.br/motoboy/profile

São tão solidários entre si… Unidos contra os inimigos comuns do trânsito… Solidariedade? Poderia ter ao menos parado. A moça repensa sobre o atropelamento. Já tinha se passado meses. A dor, a física e covarde dor, foi-se. Ficaram cicatrizes na memória. Marcas bem difíceis de tirar sobre uma história que ouviu de outros. Ficaram também os pinos. Um ultra-som panorâmico legitimava seu caso (extra)ordinário, ainda que não se lembrava de nada que tinha ocorrido.

– Fui ver Cão Sem Dono  . É um filme nacional.

Seu pai trocou de marchar, desacelerou e parou no farol vermelho. O motoboy do lado direito do carro passou reto.

– É, filha. Foi com quem?
– Fui sozinha… Me espantei um pouco com a história. Pelo fato de ela parecer com a minha. A diferença principal é que a personagem é atropelada por um motoboy no meio da história e não no final. Me lembrou aquela vez que eu tava com… É.  Angústias de pós-faculdade, pré-carreira profissional…
– Ahã…
– O filme também fala da cumplicidade entre os humanos. A menina foi resgatada pelo motoboy, levada para o hospital, teve a perna engessada. Ah, e tem um final feliz. Bem, comigo não foi bem assim… Em termos. Alguém me socorreu, sei lá quem. Pelo menos, né?

Uma ambulância com a sirene ligada corre na direção oposta da avenida. Alguém em perigo. Talvez uma doença, um ataque cardíaco, um outro atropelamento. Um anseio sentimental.

– Ás vezes eu me pergunto se a sirene estava ligada na ambulância do Resgate aquele dia. O percurso era curto para ligar a sirene talvez. Ou me pareceu curto. Sei lá, não dá para saber porque eu tava meio sem noção das coisas. A Santa Casa fica perto da Augusta, pai?
– Péra, deixa eu lembrar. Você foi atropelada na altura da Augusta que fica perto da Praça Roosevelt. A Santa Casa… Fica perto do Mackenzie, sabe?
– Sei. É perto mesmo.
– Fica perto sim.
– Acho que eles não ligaram a sirene. Não deu tempo.

Ia ser interessante que a sirene tivesse sido ligada. Chamar um pouco a atenção na cidade do anonimato. Lembrou também da Santa Casa, daquele mundo de gente esperando ser atendida, a dor e a espera. A arquitetura clássica misturada com o cinza do concreto sendo vista de uma maca gelada.  Desde 1884 no bairro de Santa Cecília. Estava escrito em placas espalhadas pelos corredores… O centro da cidade de São Paulo parecia acolher e expulsar. Caramba, mas como tem gente nessa metrópole para ser acolhida. 

Se foi uma moto, não, se foi um motoboy que tinha mudado seu percurso aquele dia, aquelas semanas, aquela vida. Presumiram? Viram? Os olhos de quem? Para que saber? O que importa é o ato. O ato de ajudar. Também… Nunca saberia, nem se voltasse para a esquina da Augusta, daquele Outro Lado, num dia tão claro que revelasse algo na sua mente, além das sujeiras das calçadas.

 

 

Juliana dos Santos de Almeida Sampaio

 

Escrito para laboratório “Narrativas da Contemporaneidade” da professora drª Cremilda Medina. ECA-USP, 2007.