Inefável Solilóquio


Capítulo 1. Inclinou-se
24 maio , 2007, 22:35
Filed under: Conto, Inefável Solilóquio

… em direção àquela mesa de mogno que nos separava. Era um movimento já conhecido por mim. Acendi o cigarro que pendia em seus lábios juvenis e recebi em troca uma baforada feita com gosto, quente e úmida. Ela me olhava com os cantos das pálpebras e silenciosamente furtou minha carteira do bolso prevenindo-se que sua mão tocasse de leve áreas não pudicas. Posso? Ela me pergunta como se fosse possível recusar… Acenei positivamente com um desfacelamento de cabeça. Daquele pedaço burguês da minha pessoa, ela retirou meus documentos, cartões, papéis amassados e deslumbrou-se com a carteira de identidade. Ficou longos minutos a observar aquela terrível foto dos meus 18 anos. Uma 3×4 que foi tirada um pouco antes de eu perder minha inocência com as meninas da praça que meu pai me apresentou. Você é muito imaturo… Disse-me aquela moça que conheci nas aulas que eu oferecia na faculdade. Ela na carteira… Eu, no tablado… E, por fim, esse julgamento fulminante com os olhos no chão. Muito imaturo para a idade que esse RG se pretende… Passei a mãos pelos seus cabelos e apenas vi uma menininha atraente que queria se arriscar em uma rebeldia visando carinhos. Porém, ela se recusou por inteiro. Todos meus mimos. Desvio o olhar, as mãos…. E todo seu corpo pareceu se pôr perante um abismo. O abismo daquela mesa de mogno e das partículas de nicotina. A facilidade de conquistar uma garota de um pouco mais de 20 anos era tão maior quanto fazer crescer esses cabelos levemente grisalhos nas têmporas…  Era preciso rir dessas idéias para que não ficasse nervoso com ela. Já estávamos passando por dificuldades como toda essa insegurança. Não poderia desmenti-la. Ou, muito pior, concordar com ela. Você gosta de mim porque eu sou como um animal facilmente domesticável, não critico, não questiono e ainda tenho instintos que te agradam. Um sinal tão óbvio de imaturidade… E eu… Também sou medíocre. Por crer que alguém com a suposta “mais experiência” me traria estabilidade emocional. Não nego… Mas como você me explora. Como… Por favor, fique quieta. Eu quis evitar. Foi impossível não me levantar para mandá-la calar a boca com todas aquelas verdades. Detenho um status a zelar.

 

 

(do conto Inefável Solilóquio – Juliana dos S. de A. Sampaio)

Anúncios