Inefável Solilóquio


Capítulo 8. O Professor repensa: “Ofendendo por meio da indulgência…”
25 maio , 2007, 13:23
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Escrota. Assim, eu, somente eu, com vulgar qualificação falo sobre você. Exclusivamente eu, pois agora tenho clareza de tudo que você constitui e que outros são incapazes de perceber. Cada singular artimanha sua travestida em um sorriso largo. E afirmo novamente: Escrota. Categoricamente, escrota. Sem remorsos. É o que você merece.

Um conjunto de sadismos sofisticados no qual o perdão é destaque.  Uma sutileza a mais e a armadilha se realiza. Uma construção prévia de inércia compassiva. Porém… Eu? Eu não! Eu não me sujeito a situações de risco. Aquele turbilhão… Veio e me arrematou. Sim, soprei um pouco mais. No entanto, sua compreensão é sobre-humana e, silenciosamente, me torturou.

De fato, o instrumento mais avançado do egoísmo que tive a honra de experimentar em gostos adocicados. Você veio, olhou e com palavras e lágrimas foi de uma sinceridade digna de troféu… Que fardo! Antes me xingasse, expusesse os defeitos insolúveis da minha pessoa, desqualificasse minha respiração! Cuspisse na minha cara e nunca mais me ligaria perguntando como foi meu dia.

Não diga que está tudo bem. Que a vida continua e seremos adultos para entender… Escrota! Nesse seu jogo, eu já perdi por antecipação. Essa sua obstinação… Pela perfeição… Obriga-me! Compele-me a me sentir além da inferioridade. Incapaz de manter qualquer relação humana com decência. Errei e assumo. Agora é um “adeus e que seja feliz”.

 

 

(do conto Inefável Solilóquio – Juliana dos S. de A. Sampaio)

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Capítulo 7. Falta de Retórica
25 maio , 2007, 13:19
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Disse que ficava bonita quando chorava. As contrações próprias do rosto, o vivaz vermelho da pele, os lábios intumescidos e a pele encharcada. Com as pontas do dedo, retive algumas preciosidades para si. Aqueles pequenos exemplares… Se pudesse as guardava para reverenciar toda manhã. Frutos de uma certa humanidade que se perdeu em intempéries. Invejava-a pela espontaneidade emocional da garota. Sentia uma ligeira pena também e um arrependimento diante do sentimento, mas não havia o que fazer. Era contemplação, inveja e pena. Tudo entrelaçado dialeticamente… E os corvos lá fora assim me anunciavam.

 

 

(do conto Inefável Solilóquio – Juliana dos S. de A. Sampaio)



Capítulo 6. Da moça
25 maio , 2007, 13:16
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Cada vértebra sua desenhava sulcos no colchão. Era assim que eu esperava que a noite terminasse. Sono profundo. Ligeira culpa sobre o travesseiro. O exato nunca realizado por completo. Mas o que me importa se você ainda estava lá aos meus pés? Aquela perturbadora proximidade física que nos mantinha confinados. Um passo, um insignificante avanço. A simplicidade do chute no ar.

Absurdos! Como os havia construído. Tijolo a tijolo. Não ecoava batidas cardíacas em seu corpo! Os fluidos se entroncavam nas artérias. Fato: O solo frio já devia ter engolido da matéria à alma. Não. Era um fardo recém adquirido pelas palavras duras… Talvez fosse uma questão de honra? Um alívio?  Há oportunidade para que todos experimentem as sensações que cada lado oferece. Você tinha que repetir de alto e bom som. E eu, ouvir… Concordar com leves movimentos de cabeça e guardar os vulcões em seus devidos lugares.

Agora, meu bem, são apenas formalidades. Palavras de silêncio e murmúrios nos movimentos de pálpebra. Entre um ou outro momento, surpresas. Sorrisos fotográficos! Esses… Ah esses que me impelem a um desejo de mergulhar nas águas negras alheias. Resta-me gritar com os dentes cerrados e os olhos abertos.

 

 

(do conto Inefável Solilóquio – Juliana dos S. de A. Sampaio)



Capítulo 5. Um legado desonroso
25 maio , 2007, 13:12
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As fuligens do outono, do outono morto, grudavam na garganta seca… Nas cordas vocais ressentidas, ressecadas e retorcidas. Mau uso… Enfim findo. E, assim como de esperado intenso, as mariposas, em seu mais sincero cinza, exigiam o camuflar na cidade grande. Saíam pelos buracos corpóreos em decomposição… Mesclavam-se à matéria que, naquele momento, seguia milimetricamente as regras da bula.

Vide-a. Sim, aquela moça. E a mesa de mogno. São os insetos que a colonizaram e tomaram o espaço. Qual a consideração que teria consigo? O espírito já era vidro. Cacos a serem recolhidos… Há tantos que ainda se importarão na ausência…

Ah… Pervertidos! Se assim fossem mais. Se ousassem mais! Teria no limiar dos toques… No limiar… O que seja! Não mais as imagens talhadas com tanta estima! Nada demais calcado em intenções próprias. A miséria dos que andam sozinhos a procura do signo do ar que queima e deturpa as idéias puras.

Tímpanos disfuncionais: uma hipótese concebível. Lá está, pois, a rigidez do som que não veio… Era um simples gesticular de fibras dentro de uma perfeita caixa acústica.

 

 

(do conto Inefável Solilóquio – Juliana dos S. de A. Sampaio)



Capítulo 4. Do professor
24 maio , 2007, 22:42
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Tomei conhecimento de sua existência em um dia claro. Dia de poucas palavras e muita atividade. Dela. Porém, não se regulava por variações climáticas. Autêntica… Algo a se admirar! Não reclamava se chovia ou fazia calor, apenas sentia o que internamente pulsava e expulsava. O dia é seu, você o faz. Suas frases curtas. Ó que interessante meu novo objeto de estudo!

Contudo… Sim, “contudo”, pois não há como não usar advérbios de adversidade em um mundo onde as leis da superficialidade imperam. Então… Com tudo você é sensível. Um caleidoscópio único de percepção… Da reflexão que eu mesmo não poderia adotar, pois fadaria aos murmúrios. E o tempo é escasso.

Seus desarmes… Exposição das fraquezas humanas… Constituição de malícias dramáticas… Defeito por defeito sendo feito e refeito. Por favor, desista desta tensa permanência. Essa insistência… de apreender tudo sob ângulos oblíquos e cheios de arestas. A sua infelicidade não é a minha! E não posso mais te encontrar sem resgatar do pó as lembranças perversas do dia em que perdi a inocência. Depurei a raça humana!

Eu sei, sei que não há nada melhor do que os avanços da medicina. Que não há nada mais confortável do que algumas pílulas de manhã. Crer que tudo não passa de substâncias mal recolhidas pelos receptores cerebrais. Reitero: por favor, pare. Você não tem noção do que é preciso para sobreviver? 

Livrar-me dos entroncamentos subjetivos é sempre um fim a ser contemplado… Só contemplado… Nunca terei em mãos… Apenas ainda não sei porque ainda não admiti a falha como crônica e dada. Ponto.

É o assunto que mais domino. Quando existir ainda pessoas que pecam nas suas subjetividades, estarei  eu lá para dizer: “Não se preocupe, o mundo é assim… E eu já fui bem pior que isso. Penso: a solução é ter a consciência e nada mais.”

Agora, quero que as subjetividades alheias se esfarelem em seus devidos lugares… Com os devidos propósitos!!

Ó que raridade.

 

 

(do conto Inefável Solilóquio – Juliana dos S. de A Sampaio)



Capítulo 3. Julgamentos
24 maio , 2007, 22:41
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Ela se levantou, ajeitou a saia com as pontas dos dedos e começou a agir como uma esquizofrênica. O que a senhorita gostaria? Tenho preferência por coisas curtas e densas… Mas uma entusiasta das pequenas coisas! Recomendo que a senhorita experimente… Ah! Mas não são as “pequenas coisas”. Tal denominação já veste me preconceito. Hmm… Poderia explicar-me melhor. Claro. São aquilo que os outros ignoram ou subestimam. São as formações gramaticais vindas de diversas origens. Da mente, da mão, dos olhos, da boca, dos gestos… E ecoam em infinitas interpretações. Não são “pequenas coisas”. Estão além de meros efeitos…Poderia lhe dar um conselho? Sim. Excessos podem lhe fazer mal. Temos outras opções… E a personagem se retira em revolta diante do insensível.

De quem é?, perguntei logo depois do último suspiro e do substantivo pretensioso. Sartre, Vargas Llosa, Dostóievski, Clarice Lispector, Kafka, Caio Fernando Abreu, Goethe, Garcia Márquez, Joyce, Bioy Casares, Machado, Virginia Wolf, Camus… Enumerou todos os autores de sua vida, os quais tinha devorado. Tinha uma relação voluptuosa com os livros. Talvez fosse eu apenas mais um grande romance para ela.

Sinceramente, a personagem é um tanto quanto ingênua e agressiva. Isso não é propriamente ruim. Não é uma crítica negativa em si. Acho que você deveria estender seus textos. Talento inato não existe. As linhas são um trabalho constante e intenso.

Com um sorriso de lado, um sentar de pernas cruzadas, umas batidas ritmadas vindas do contraste das unhas esmaltadas e a mesa de mogno, e especial, algumas rugas entre as sobrancelhas, ela inspira fundo. Vejo corvos, alguns no parapeito e o vento transformando a janela em um instrumento peculiar de ruídos. São sinais de trovoada no mundo aqui dentro, na natureza lá fora. Ela desenlaçou as coxas, inclinou o torso em minha direção com os olhos fixos, como se houvesse algo além de mim, como se pudesse atravessar a matéria do meu corpo e, assim, ela se retirou diante do insensível.

 

 

(do conto Inefável Solilóquio – Juliana dos S. de A Sampaio)



Capítulo 2. De um narrador possível
24 maio , 2007, 22:38
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Os ossos estavam roídos pela ansiedade. Há tempos cultivava essa debilidade de forma que a cura se afastava a passos largos. Muito provável que fosse uma escolha própria… Não deixaria de ser. Não importava mais se era de uma raiz sádica ou obra refinada do intelecto. Ah sim! Uma parte ineliminável do ser cotidiano. Assim, através das milhares de rachaduras, enxergava a luz de banda. Iluminava construindo um cenário trágico, romântico, clássico dos instáveis tempos de teatralização.

E a boca… Exalava o odor do desuso. Nela, refugiavam-se as palavras óbvias. Também não permitia que adentrassem quantidades e qualidades que considerasse superiores a sua pessoa. Era, por assim dizer, uma temeridade defensiva. Uma abertura sem critérios, clamadora de excessos, traria consigo surpresas desagradáveis. O corpo estava por demais sensibilizado para qualquer contratempo. Claramente, não lhe apetecia a perda do controle.

Já as décadas registradas em documentos seriam interpretadas por saudosistas como as melhores que se poderiam experimentar. Não era exatamente a visão que tinha do espelho estreito de casa. Era visivelmente maduro, inteligente, gentil e de rápido raciocínio. Porém, já tinha perdido o frescor, a inocência, a delicadeza de uma época sem vícios. Características basilares para uma reprodução de sucesso… De fato, não as perdeu… Nunca as havia tido. E assim, lamentava. Desde que se conhece, e isso é muito recente, considera-se uma criança áspera e evitativa.
 
Ah, o chão gélido! O teto tão próximo. A claustrofobia. Desejava tanto que tal temperatura se encontrasse com a sua e neutralizasse a queima que o roer imprimia aos ossos. Por fim, o instrumento factível descoberto era a gargalhada cuja anatomia reduzia-se à celulose e tinta. Uma alteração na direção dos ventos… Uma nova intensidade. Flocos de neve nas íris. Aquela percepção tão perseguida.

 

 

(do conto Inefável Solilóquio – Juliana dos S. de A Sampaio)