Inefável Solilóquio


Destituição
27 setembro , 2008, 1:21
Filed under: Desabafo

Meus personagens não têm nomes. São tão anônimos quanto eu. Estranho nomes em estórias… O que não significa que não os gosto na realidade. Gosto quando falam o meu, quando meu celular finalmente toca e a outra pessoa do lado da linha não pergunta “Quem está falando?” mas categoricamente pronuncia um monossílabo qualquer. Ainda espero esse aparelhinho não se dissimular em enganos… Gosto ainda mais das pupilas dilatadas das pessoas a quem me dirijo dizendo seus nomes. A luz do sorrisos chega a refletir em mim e até parece que o reconhecimento é mútuo… Gosto de lembrar dessas pequenas relíquias de identidade, e das pronúncias, e como os sorrisos se encaixam com os nomes…

De certo faço tal tipo de comparação pois não consigo desvencilhar minha vida e minhas palavras. Creio que seja falta de talento, inaptidão para a ficção. Dou-lhe as costas. Escrevo porque penso e penso assim como sinto e nem anos de terapia mudariam essa característica. Uma tal teimosia criativa que se bajula em ser filha única no conjunto de não soluções da minha personalidade.

Essa teimosia criativa me impele a pensar minha vida em quadros fílmicos, estéticos, íntimos, dramáticos… Distancio-me dela de forma a pensar que o roteirista é outro alguém e eu sou uma diretora de arte… Coloco uma cor nos dedos, uma luz na sala… Outros personagens, um problema, um clímax: opções fora do alcance que às vezes acontecem sem razão aparente. O diretor instintivamente diz “É assim” e o ator se desdobra para lhe agradar… E tudo sai esplêndido… Durante, em média, uma hora e trinta minutos.

Por que seria a culpa sempre nossa e a felicidade obra do destino?