Inefável Solilóquio


A Razão de Uma Louca
8 agosto , 2007, 20:02
Filed under: Conto

Essa é sua última chance.

Esse era seu argumento ao telefone para que nos encontrássemos novamente depois de algumas semanas que estávamos separados. Sua voz soava como uma telefonista treinada, que tinha repetido as palavras a quantidade suficiente de vezes até que seus dedos que tampavam os ouvidos, pois lhe dava maior concentração, doessem e ficassem adormecidos. Concordei, ainda que imagens especulativas estivessem a rir da minha apreensão e, por isso mesmo, se tornavam cada vez mais especulativas e dramáticas. Marcamos. Cinco horas no café da avenida.

Ela estava vestida adequadamente para alguém da sua idade. Um assunto polêmico no entremuros do nosso jovem falecido mundo de exatos 773 dias. Sóbria em um vestido de inverno. Talvez mais atraente pelo que escondia sob o manto pesado. Calada, ela me disse “Oi”. De sorriso fechado, abriu levemente o lábio e perguntou “Tudo bem?”. Seu cumprimento era como uma mensagem telepática, algo não produzido por certas cordas penduradas em sua garganta. As palavras não vieram úmidas, mas secas, metálicas. Um zunido do ouvido que apareceu como uma obrigação social de cumprimentar as pessoas, mesmo aquelas que a tinham abandonado na rua de madrugada depois de uma discussão intermitente.

Mantendo-se calada, ela pegou de leve na minha mão. Não sei como ela a achou, pois minhas origens de italianos com espanhóis impediam que elas ficassem paradas enquanto falava. Não paremos de falar. Continue assim, pois ela pode aproveitar o silêncio para novamente invadir meu cérebro com suas frases metá… Ela abriu a palma da minha mão e, com os dedos, percorria as linhas. Se acreditasse em esoterismo, talvez cresse que ela estaria a amaldiçoar lentamente cada linha minha, a da vida, do amor, do destino e tudo mais, mas não. Ela não estava com o semblante enrijecido ideal para tal tipo de trabalho, estava completamente tranqüila.

Seu gesto de carinho me lembrou da única vez que estivemos separados antes daquele nosso fim de fato. Ela iria viajar durante um pouco mais de um mês a negócios. Era essencial para seu crescimento profissional, mesmo com a profissão duvidosa de curadora de artes de rua. Assim me dizia no aeroporto quando decidia que dali a pouco pegaria na minha mão para falar de coisas sentimentais. Ela descolou dedo a dedo minha mão de suas têmporas, abriu a palma, cheirou-a e a coloco sobre o lado esquerdo de seu peito. Depois fechou meu punho e murmurou coisas inaudíveis. O que você disse? Disse para você guardar o que eu te dei. Dei uma risada leve e um canário assobiou essas bobas músicas românticas. De uma elegante donzela de folhetim do século XIX, passou para traços corpulentos de uma diva de cinema do século XX e abriu novamente a palma de minha mão. Deixou que ela ficasse alojada um pouco abaixo do umbigo. Disse que nesta forma, eu também poderia lembrar dela se quisesse. Gargalhou e um veludo quente fez a volta no meu corpo. Estremeci. Ao pé do ouvido, disse que gostava de ser assim, sentimentalmente descarada e sutilmente safada.

Você vai guardar o que eu te dei?

Ela continuava a brincar com a minha mão, mas pelo menos agora a deixou descansando na mesa do café. Você perdeu o que eu te pedi para guardar. Era exatamente isso o que eu gostaria de ter perguntado aquele dia… O que você pediu? Ela retirou tudo do espaço, corpo, alma, oxigênio, dióxido de carbono, luz do olhar, gestos e seus significados. Parecia que ia chover lá fora ou talvez queria que estivesse, assim, cinza e tempestuoso, pois poderia lhe dizer que estava atrasado, que poderíamos nos encontrar outro dia, que… Ela parecia pronta para esticar as pernas e ir embora. Você pega essa sua mão e enfia naquele lugar. Ouvi os saltos de seu sapato fazerem sons com o chão de concreto que parecia uma marcha fúnebre se distanciando cada vez e se dedicando toda a mim.  Ela voltou. Não é para fazer o que você está pensando. É para você tampar esse buraco negro que engole tudo e perde as coisas que os outros te pedem para guardar, seu filho da mãe!

 

 

Juliana dos S. de A. Sampaio

 

Ps: Isso é o que se gera quando são intercalados Alan Pauls, Nelson Rodrigues e devaneios de madrugada.

 

 

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