Inefável Solilóquio


Revolto Soneto
3 junho , 2007, 22:56
Filed under: Poesia

Sem a convergência dos braços impotentes
Apontando os velhos indicadores
Resgata gestos indecentes
A soberania de todas as dores.

Com os pés cravados pela memória
Situando fragmentos da perdição
Escava ampla clarabóia
A gelada brisa em evocação.

Velozmente agiria aquele que busca
O metafísico na matéria bruta
E, porventura, mantém eqüidistante.

Não era giz marcado.
Não havia nada ensaiado.
Enfim, o precioso instante.

 

 

Juliana dos S. de A. Sampaio

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Ontem
2 junho , 2007, 11:02
Filed under: Conto

“Católica apostólica romana!”, era assim que minha bisavó se definia. Franzina e com olhos que já tinham perdido a fixidez, a Grande Vó, como eu e meus primos a apelidaram, ainda mantinha a petulância de manter sua vitalidade, em especial quando os debates lá em casa estendiam-se em horas incontáveis sobre religião. É… Religião e fofoca de praça.

Todo dia, antes que o sol nascesse e até mesmo que o galo cantasse, ela preparava seus apetrechos para nos benzer. Primeiro os mais novos, depois os mais velhos, depois os clientes. De… Pois, a Grande Vó era benzedeira. Acreditava no poder de cura que Deus lhe tinha oferecido, mas coloca sua mão no fogo se questionassem sua religião. “Sou sim! Sou católica apostólica romana! E vou ver o Papa com estes olhos cansados, com os joelhos rangendo e o ventre inchado!”

O Grande Vô… – Verdade! Nosso bisavô! – morreu muitíssimo antes que visse o primeiro neto nascer. Nós, os bisnetos, só temos nosso Grande Vô na memória…. coletiva. Dizem as línguas da cidade que ele tinha fugido com outra mulher, que a Grande Vô era exigente demais. A católica apostólica romana desdenhava de todos que falassem sobre isso. Não os ameaçava de rogar praga, pois era benzedeira e não bruxa, oras! Ela sempre dizia, roçando o ouro da aliança na mão esquerda – a mesma que usava para nos tirar os tersóis dos olhos -, que seu marido foi herói de guerra. Era, portanto, viúva. O lenço preto e a aliança opaca serviam para confirmar seu argumento. E eram com eles que reverenciaria o Papa.

Berrávamos nós, os bisnetos, diante do encanto que nos tinha invadido. “Ô vózinha, o sol nasceu igual, mas diferente!”, era nosso hino repetido quantas vezes nossos pés encontravam o colchão. Pulávamos na cama como se fôssemos voar de alegria. Tínhamos percebido que o dia tinha nascido como qualquer outro, ainda que algo espetacular viesse ocorrer mais tarde: a vinda da grandíssima santidade, o Papa. Uau! Estávamos tão ansiosos! A Grande Vó tinha nos prometido que nos levaria para a cerimônia. Lá em casa havia uma moça que trabalha fazendo os melhores quitutes. Para não atrapalhar a Grande Vó, pois com ela não tínhamos tal liberdade, fazíamos perguntas a cada dois minutos, ou dois minutos e meio para ser exato, sobre quando iríamos partir. A Grande Vó sabia esperar… Apesar dos infinitos finitos anos que cozinhava sua religiosidade. Nós não. Era festa.

Chegou o dia! Mas eu já devo ter dito isso antes! Sim, sim! Apesar de ser a presença terrena de Cristo e Deus – como afirmava a católica apostólica romana -, o Papa não estava acima do Deus da Grande Vó. O Deus de todas os detalhes do cotidiano, das pequenas coisas lá de casa, da benzedeira: a cama, o cheiro das plantas, os gritos infantis, a água do córrego, os cantos da cozinheira… Mas, sabe, era o Papa e assim estava estabelecido pelos que vieram muito antes de mim, antes da minha mãe, antes mesmo da Grande Vó! Mas quanto tempo!

De repente o tempo passou… Rápido… E tudo parecia que viria nesse ritmo alucinante. A Grande Vó deixou seu legado para a Vó. E eu já não me interessava por essas coisas. Coisas que ficaram enterradas por lá. Sob a terra fria, as folhas mortas e o concreto, sim o concreto, do quintal.

 

 

Juliana dos S. de A. Sampaio