Inefável Solilóquio


Capítulo 9. Documento legítimo
25 maio , 2007, 13:26
Filed under: Conto, Inefável Solilóquio

Antes de partir aos soluços, ela tinha deixado sobre a mesa do escritório, de mogno mais maciço do qual a mesa da sala é feita, um texto escrito em linhas corridas. Havia uma pequena nota abaixo do título, que curiosamente ela denominava ser uma ‘carta’, na qual ela se mostrava humilde na tentativa de transformar em conteúdo escrito aquilo que não se transforma em palavras. Ela queria tornar real um paradoxo. Aquela moça almejava o inefável solilóquio.

Eis a obra que li para os corvos que me observava à beira da sacada:

Carta – homenagem para mais que transeuntes de minha ínfima existência
(título tão longo quanto o conteúdo mal ilustrado)

Escarrar vernáculos sem contestação em pronto nojo e desespero sem vírgulas traduções parágrafos precisão de linguagem e outras frescuras que só permutam a mente humana de vivas contradições em um tijolo imóvel racionalista. E descrever você! Especialmente você que ali sentado no canto escuro e imundo da modernidade lacônica descansa os olhos e a visível impertinência sobre as páginas de um livro daquele famoso intelectual de 68. Tatear como um cego cada curva e sinal da mente sua que vaga na minha, assim como os sentidos que deliram ao tocar a pele já seca do ar metropolitano de cinzas. Desse modo gerando as interpretações mais íntimas e consagradas que me satisfariam, ainda que durante momentos curtos estampidos de glória, durante todo um dia, mês, ano ou quem sabe uma vida inteira. Um tempo indefinido. E depois vem O Outro. Novamente O Outro… Um espectro. Penso-o ser preenchimento das linhas potências, as que serão ainda escritas à beira da mediocridade já instalada. Céus! Você não me negaria explorar assim descaradamente seus pormenores? Colocar-lhe em versos em rimas, lançados por metáforas, diretos como lanças em chamas e lhe meter na minha história sem decoro. História tão infanto-juvenil, mas que é minha. Só minha, se assim lhe prouver. Creio, contudo, que a instabilidade que lhe ofereço corrói as esperanças de uma vida de tabelas, cálculos, assinaturas e cartões de ponto, com mesas de jantar, poltronas de couro e telas de cristal líquido que adornam o conformismo futuro tão esperado. Ardilosamente lhe arranco a quietude das tardes de chuva e lhe ponho em outro estado metafísico. Ou físico também e porque não? Esses seres de carbono não são somente idéias, são hormônios líquidos sangue terra ar fogo água tudo que escorre despudorosamente em direção ao pó. Sobraria um pouco para eu guardar nos resquícios e lembrar quando estivesse sob lençóis encardidos e travesseiros úmidos? Ou o egoísmo é uma nova forma de escapismo que desconheço? Era para lhe dar mil ou mais tacadas de jeito para ver a ilógica e a palavras do Id escaparem-lhe dos poros ainda abertos escancarados do nosso último encontro. Esta mente posta sóbria. A minha já ébria.  Não me negue mais um texto e já trarei as pontas dos dedos sobre as teclas. Muitos, diversos amontoados de palavras ainda por vir o empurrarão ao abismo das ambigüidades insolentes, insones. É o que lhe garanto entre livros abertos sobre a cama.

 

 

(do conto Inefável Solilóquio – Juliana dos S. de A. Sampaio)

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