Inefável Solilóquio


Capítulo 11. O narrador possível conclui: “Melancolia de Subúrbios Mentais…”
25 maio , 2007, 13:28
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Admitido que os sons não são cacofônicos, travam-se em uma luta por perversos prazeres as sutilezas paradoxais. Declaram-se como objetos de vício de natureza contemplativa, essencialmente subjetiva. Veja bem, individual! Não assumem sua essência e sobre sua pele resplandece soberano o véu da aparência. Soterram-se no subsolo das sensações que tem como algoz a cognição inviabilizadora.

Logo, meus caros, a tolerância sobre imperfeições é uma faculdade moral que lhes corrói o viço da percepção. E a melancolia torna-se algo onipresente na medida que se vive pelas beiras…

 

 

(do conto Inefável Solilóquio – Juliana dos S. de A. Sampaio)



Capítulo 10. A moça esclarece: “Ilhós é uma palavra bonita…”
25 maio , 2007, 13:27
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Obrigaram-me a ficar com o corpo inerte, entre quatro paredes cujas distâncias não foram bem delineadas. Puseram-me uma venda nos olhos quando eu achei que estava participando de uma atividade de inclusão. Há meses que fico à deriva, tateando rachaduras, inspirando odores, esperando…

Proibiram-me de qualquer manifestação. Seriam por demais inoportunas para o momento e, especialmente, para os vizinhos. Contudo, creio que nós seres humanos não fomos construídos histórico e muito menos biologicamente… Para a reclusão, gritos, esmurros e entre outros atos de desespero que faziam meus dias naquela sala. Cada vez mais opaca… Escuridão.

Moldada dentro de parâmetros altíssimos de segurança que evitam qualquer atropelo estava a construção. Descobri os atos em vão. Isolamento acústico, bairro desabitado… Ecos. Palavras que reverberam. Como seu diálogo com o mundo lá fora fosse somente monólogos de atriz de quinta. Tadinha, confusão.

 

 

(do conto Inefável Solilóquio – Juliana dos S. de A. Sampaio)



Capítulo 9. Documento legítimo
25 maio , 2007, 13:26
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Antes de partir aos soluços, ela tinha deixado sobre a mesa do escritório, de mogno mais maciço do qual a mesa da sala é feita, um texto escrito em linhas corridas. Havia uma pequena nota abaixo do título, que curiosamente ela denominava ser uma ‘carta’, na qual ela se mostrava humilde na tentativa de transformar em conteúdo escrito aquilo que não se transforma em palavras. Ela queria tornar real um paradoxo. Aquela moça almejava o inefável solilóquio.

Eis a obra que li para os corvos que me observava à beira da sacada:

Carta – homenagem para mais que transeuntes de minha ínfima existência
(título tão longo quanto o conteúdo mal ilustrado)

Escarrar vernáculos sem contestação em pronto nojo e desespero sem vírgulas traduções parágrafos precisão de linguagem e outras frescuras que só permutam a mente humana de vivas contradições em um tijolo imóvel racionalista. E descrever você! Especialmente você que ali sentado no canto escuro e imundo da modernidade lacônica descansa os olhos e a visível impertinência sobre as páginas de um livro daquele famoso intelectual de 68. Tatear como um cego cada curva e sinal da mente sua que vaga na minha, assim como os sentidos que deliram ao tocar a pele já seca do ar metropolitano de cinzas. Desse modo gerando as interpretações mais íntimas e consagradas que me satisfariam, ainda que durante momentos curtos estampidos de glória, durante todo um dia, mês, ano ou quem sabe uma vida inteira. Um tempo indefinido. E depois vem O Outro. Novamente O Outro… Um espectro. Penso-o ser preenchimento das linhas potências, as que serão ainda escritas à beira da mediocridade já instalada. Céus! Você não me negaria explorar assim descaradamente seus pormenores? Colocar-lhe em versos em rimas, lançados por metáforas, diretos como lanças em chamas e lhe meter na minha história sem decoro. História tão infanto-juvenil, mas que é minha. Só minha, se assim lhe prouver. Creio, contudo, que a instabilidade que lhe ofereço corrói as esperanças de uma vida de tabelas, cálculos, assinaturas e cartões de ponto, com mesas de jantar, poltronas de couro e telas de cristal líquido que adornam o conformismo futuro tão esperado. Ardilosamente lhe arranco a quietude das tardes de chuva e lhe ponho em outro estado metafísico. Ou físico também e porque não? Esses seres de carbono não são somente idéias, são hormônios líquidos sangue terra ar fogo água tudo que escorre despudorosamente em direção ao pó. Sobraria um pouco para eu guardar nos resquícios e lembrar quando estivesse sob lençóis encardidos e travesseiros úmidos? Ou o egoísmo é uma nova forma de escapismo que desconheço? Era para lhe dar mil ou mais tacadas de jeito para ver a ilógica e a palavras do Id escaparem-lhe dos poros ainda abertos escancarados do nosso último encontro. Esta mente posta sóbria. A minha já ébria.  Não me negue mais um texto e já trarei as pontas dos dedos sobre as teclas. Muitos, diversos amontoados de palavras ainda por vir o empurrarão ao abismo das ambigüidades insolentes, insones. É o que lhe garanto entre livros abertos sobre a cama.

 

 

(do conto Inefável Solilóquio – Juliana dos S. de A. Sampaio)



Capítulo 8. O Professor repensa: “Ofendendo por meio da indulgência…”
25 maio , 2007, 13:23
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Escrota. Assim, eu, somente eu, com vulgar qualificação falo sobre você. Exclusivamente eu, pois agora tenho clareza de tudo que você constitui e que outros são incapazes de perceber. Cada singular artimanha sua travestida em um sorriso largo. E afirmo novamente: Escrota. Categoricamente, escrota. Sem remorsos. É o que você merece.

Um conjunto de sadismos sofisticados no qual o perdão é destaque.  Uma sutileza a mais e a armadilha se realiza. Uma construção prévia de inércia compassiva. Porém… Eu? Eu não! Eu não me sujeito a situações de risco. Aquele turbilhão… Veio e me arrematou. Sim, soprei um pouco mais. No entanto, sua compreensão é sobre-humana e, silenciosamente, me torturou.

De fato, o instrumento mais avançado do egoísmo que tive a honra de experimentar em gostos adocicados. Você veio, olhou e com palavras e lágrimas foi de uma sinceridade digna de troféu… Que fardo! Antes me xingasse, expusesse os defeitos insolúveis da minha pessoa, desqualificasse minha respiração! Cuspisse na minha cara e nunca mais me ligaria perguntando como foi meu dia.

Não diga que está tudo bem. Que a vida continua e seremos adultos para entender… Escrota! Nesse seu jogo, eu já perdi por antecipação. Essa sua obstinação… Pela perfeição… Obriga-me! Compele-me a me sentir além da inferioridade. Incapaz de manter qualquer relação humana com decência. Errei e assumo. Agora é um “adeus e que seja feliz”.

 

 

(do conto Inefável Solilóquio – Juliana dos S. de A. Sampaio)



Capítulo 7. Falta de Retórica
25 maio , 2007, 13:19
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Disse que ficava bonita quando chorava. As contrações próprias do rosto, o vivaz vermelho da pele, os lábios intumescidos e a pele encharcada. Com as pontas do dedo, retive algumas preciosidades para si. Aqueles pequenos exemplares… Se pudesse as guardava para reverenciar toda manhã. Frutos de uma certa humanidade que se perdeu em intempéries. Invejava-a pela espontaneidade emocional da garota. Sentia uma ligeira pena também e um arrependimento diante do sentimento, mas não havia o que fazer. Era contemplação, inveja e pena. Tudo entrelaçado dialeticamente… E os corvos lá fora assim me anunciavam.

 

 

(do conto Inefável Solilóquio – Juliana dos S. de A. Sampaio)



Capítulo 6. Da moça
25 maio , 2007, 13:16
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Cada vértebra sua desenhava sulcos no colchão. Era assim que eu esperava que a noite terminasse. Sono profundo. Ligeira culpa sobre o travesseiro. O exato nunca realizado por completo. Mas o que me importa se você ainda estava lá aos meus pés? Aquela perturbadora proximidade física que nos mantinha confinados. Um passo, um insignificante avanço. A simplicidade do chute no ar.

Absurdos! Como os havia construído. Tijolo a tijolo. Não ecoava batidas cardíacas em seu corpo! Os fluidos se entroncavam nas artérias. Fato: O solo frio já devia ter engolido da matéria à alma. Não. Era um fardo recém adquirido pelas palavras duras… Talvez fosse uma questão de honra? Um alívio?  Há oportunidade para que todos experimentem as sensações que cada lado oferece. Você tinha que repetir de alto e bom som. E eu, ouvir… Concordar com leves movimentos de cabeça e guardar os vulcões em seus devidos lugares.

Agora, meu bem, são apenas formalidades. Palavras de silêncio e murmúrios nos movimentos de pálpebra. Entre um ou outro momento, surpresas. Sorrisos fotográficos! Esses… Ah esses que me impelem a um desejo de mergulhar nas águas negras alheias. Resta-me gritar com os dentes cerrados e os olhos abertos.

 

 

(do conto Inefável Solilóquio – Juliana dos S. de A. Sampaio)



Capítulo 5. Um legado desonroso
25 maio , 2007, 13:12
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As fuligens do outono, do outono morto, grudavam na garganta seca… Nas cordas vocais ressentidas, ressecadas e retorcidas. Mau uso… Enfim findo. E, assim como de esperado intenso, as mariposas, em seu mais sincero cinza, exigiam o camuflar na cidade grande. Saíam pelos buracos corpóreos em decomposição… Mesclavam-se à matéria que, naquele momento, seguia milimetricamente as regras da bula.

Vide-a. Sim, aquela moça. E a mesa de mogno. São os insetos que a colonizaram e tomaram o espaço. Qual a consideração que teria consigo? O espírito já era vidro. Cacos a serem recolhidos… Há tantos que ainda se importarão na ausência…

Ah… Pervertidos! Se assim fossem mais. Se ousassem mais! Teria no limiar dos toques… No limiar… O que seja! Não mais as imagens talhadas com tanta estima! Nada demais calcado em intenções próprias. A miséria dos que andam sozinhos a procura do signo do ar que queima e deturpa as idéias puras.

Tímpanos disfuncionais: uma hipótese concebível. Lá está, pois, a rigidez do som que não veio… Era um simples gesticular de fibras dentro de uma perfeita caixa acústica.

 

 

(do conto Inefável Solilóquio – Juliana dos S. de A. Sampaio)