Inefável Solilóquio


Ontem
2 Junho , 2007, 11:02
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“Católica apostólica romana!”, era assim que minha bisavó se definia. Franzina e com olhos que já tinham perdido a fixidez, a Grande Vó, como eu e meus primos a apelidaram, ainda mantinha a petulância de manter sua vitalidade, em especial quando os debates lá em casa estendiam-se em horas incontáveis sobre religião. É… Religião e fofoca de praça.

Todo dia, antes que o sol nascesse e até mesmo que o galo cantasse, ela preparava seus apetrechos para nos benzer. Primeiro os mais novos, depois os mais velhos, depois os clientes. De… Pois, a Grande Vó era benzedeira. Acreditava no poder de cura que Deus lhe tinha oferecido, mas coloca sua mão no fogo se questionassem sua religião. “Sou sim! Sou católica apostólica romana! E vou ver o Papa com estes olhos cansados, com os joelhos rangendo e o ventre inchado!”

O Grande Vô… – Verdade! Nosso bisavô! - morreu muitíssimo antes que visse o primeiro neto nascer. Nós, os bisnetos, só temos nosso Grande Vô na memória…. coletiva. Dizem as línguas da cidade que ele tinha fugido com outra mulher, que a Grande Vô era exigente demais. A católica apostólica romana desdenhava de todos que falassem sobre isso. Não os ameaçava de rogar praga, pois era benzedeira e não bruxa, oras! Ela sempre dizia, roçando o ouro da aliança na mão esquerda – a mesma que usava para nos tirar os tersóis dos olhos -, que seu marido foi herói de guerra. Era, portanto, viúva. O lenço preto e a aliança opaca serviam para confirmar seu argumento. E eram com eles que reverenciaria o Papa.

Berrávamos nós, os bisnetos, diante do encanto que nos tinha invadido. “Ô vózinha, o sol nasceu igual, mas diferente!”, era nosso hino repetido quantas vezes nossos pés encontravam o colchão. Pulávamos na cama como se fôssemos voar de alegria. Tínhamos percebido que o dia tinha nascido como qualquer outro, ainda que algo espetacular viesse ocorrer mais tarde: a vinda da grandíssima santidade, o Papa. Uau! Estávamos tão ansiosos! A Grande Vó tinha nos prometido que nos levaria para a cerimônia. Lá em casa havia uma moça que trabalha fazendo os melhores quitutes. Para não atrapalhar a Grande Vó, pois com ela não tínhamos tal liberdade, fazíamos perguntas a cada dois minutos, ou dois minutos e meio para ser exato, sobre quando iríamos partir. A Grande Vó sabia esperar… Apesar dos infinitos finitos anos que cozinhava sua religiosidade. Nós não. Era festa.

Chegou o dia! Mas eu já devo ter dito isso antes! Sim, sim! Apesar de ser a presença terrena de Cristo e Deus – como afirmava a católica apostólica romana -, o Papa não estava acima do Deus da Grande Vó. O Deus de todas os detalhes do cotidiano, das pequenas coisas lá de casa, da benzedeira: a cama, o cheiro das plantas, os gritos infantis, a água do córrego, os cantos da cozinheira… Mas, sabe, era o Papa e assim estava estabelecido pelos que vieram muito antes de mim, antes da minha mãe, antes mesmo da Grande Vó! Mas quanto tempo!

De repente o tempo passou… Rápido… E tudo parecia que viria nesse ritmo alucinante. A Grande Vó deixou seu legado para a Vó. E eu já não me interessava por essas coisas. Coisas que ficaram enterradas por lá. Sob a terra fria, as folhas mortas e o concreto, sim o concreto, do quintal.

 

 

Juliana dos S. de A. Sampaio



Capítulo 11. O narrador possível conclui: “Melancolia de Subúrbios Mentais…”
25 Maio , 2007, 13:28
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Admitido que os sons não são cacofônicos, travam-se em uma luta por perversos prazeres as sutilezas paradoxais. Declaram-se como objetos de vício de natureza contemplativa, essencialmente subjetiva. Veja bem, individual! Não assumem sua essência e sobre sua pele resplandece soberano o véu da aparência. Soterram-se no subsolo das sensações que tem como algoz a cognição inviabilizadora.

Logo, meus caros, a tolerância sobre imperfeições é uma faculdade moral que lhes corrói o viço da percepção. E a melancolia torna-se algo onipresente na medida que se vive pelas beiras…

 

 

(do conto Inefável Solilóquio – Juliana dos S. de A. Sampaio)



Capítulo 10. A moça esclarece: “Ilhós é uma palavra bonita…”
25 Maio , 2007, 13:27
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Obrigaram-me a ficar com o corpo inerte, entre quatro paredes cujas distâncias não foram bem delineadas. Puseram-me uma venda nos olhos quando eu achei que estava participando de uma atividade de inclusão. Há meses que fico à deriva, tateando rachaduras, inspirando odores, esperando…

Proibiram-me de qualquer manifestação. Seriam por demais inoportunas para o momento e, especialmente, para os vizinhos. Contudo, creio que nós seres humanos não fomos construídos histórico e muito menos biologicamente… Para a reclusão, gritos, esmurros e entre outros atos de desespero que faziam meus dias naquela sala. Cada vez mais opaca… Escuridão.

Moldada dentro de parâmetros altíssimos de segurança que evitam qualquer atropelo estava a construção. Descobri os atos em vão. Isolamento acústico, bairro desabitado… Ecos. Palavras que reverberam. Como seu diálogo com o mundo lá fora fosse somente monólogos de atriz de quinta. Tadinha, confusão.

 

 

(do conto Inefável Solilóquio – Juliana dos S. de A. Sampaio)



Capítulo 9. Documento legítimo
25 Maio , 2007, 13:26
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Antes de partir aos soluços, ela tinha deixado sobre a mesa do escritório, de mogno mais maciço do qual a mesa da sala é feita, um texto escrito em linhas corridas. Havia uma pequena nota abaixo do título, que curiosamente ela denominava ser uma ‘carta’, na qual ela se mostrava humilde na tentativa de transformar em conteúdo escrito aquilo que não se transforma em palavras. Ela queria tornar real um paradoxo. Aquela moça almejava o inefável solilóquio.

Eis a obra que li para os corvos que me observava à beira da sacada:

Carta – homenagem para mais que transeuntes de minha ínfima existência
(título tão longo quanto o conteúdo mal ilustrado)

Escarrar vernáculos sem contestação em pronto nojo e desespero sem vírgulas traduções parágrafos precisão de linguagem e outras frescuras que só permutam a mente humana de vivas contradições em um tijolo imóvel racionalista. E descrever você! Especialmente você que ali sentado no canto escuro e imundo da modernidade lacônica descansa os olhos e a visível impertinência sobre as páginas de um livro daquele famoso intelectual de 68. Tatear como um cego cada curva e sinal da mente sua que vaga na minha, assim como os sentidos que deliram ao tocar a pele já seca do ar metropolitano de cinzas. Desse modo gerando as interpretações mais íntimas e consagradas que me satisfariam, ainda que durante momentos curtos estampidos de glória, durante todo um dia, mês, ano ou quem sabe uma vida inteira. Um tempo indefinido. E depois vem O Outro. Novamente O Outro… Um espectro. Penso-o ser preenchimento das linhas potências, as que serão ainda escritas à beira da mediocridade já instalada. Céus! Você não me negaria explorar assim descaradamente seus pormenores? Colocar-lhe em versos em rimas, lançados por metáforas, diretos como lanças em chamas e lhe meter na minha história sem decoro. História tão infanto-juvenil, mas que é minha. Só minha, se assim lhe prouver. Creio, contudo, que a instabilidade que lhe ofereço corrói as esperanças de uma vida de tabelas, cálculos, assinaturas e cartões de ponto, com mesas de jantar, poltronas de couro e telas de cristal líquido que adornam o conformismo futuro tão esperado. Ardilosamente lhe arranco a quietude das tardes de chuva e lhe ponho em outro estado metafísico. Ou físico também e porque não? Esses seres de carbono não são somente idéias, são hormônios líquidos sangue terra ar fogo água tudo que escorre despudorosamente em direção ao pó. Sobraria um pouco para eu guardar nos resquícios e lembrar quando estivesse sob lençóis encardidos e travesseiros úmidos? Ou o egoísmo é uma nova forma de escapismo que desconheço? Era para lhe dar mil ou mais tacadas de jeito para ver a ilógica e a palavras do Id escaparem-lhe dos poros ainda abertos escancarados do nosso último encontro. Esta mente posta sóbria. A minha já ébria.  Não me negue mais um texto e já trarei as pontas dos dedos sobre as teclas. Muitos, diversos amontoados de palavras ainda por vir o empurrarão ao abismo das ambigüidades insolentes, insones. É o que lhe garanto entre livros abertos sobre a cama.

 

 

(do conto Inefável Solilóquio – Juliana dos S. de A. Sampaio)



Capítulo 8. O Professor repensa: “Ofendendo por meio da indulgência…”
25 Maio , 2007, 13:23
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Escrota. Assim, eu, somente eu, com vulgar qualificação falo sobre você. Exclusivamente eu, pois agora tenho clareza de tudo que você constitui e que outros são incapazes de perceber. Cada singular artimanha sua travestida em um sorriso largo. E afirmo novamente: Escrota. Categoricamente, escrota. Sem remorsos. É o que você merece.

Um conjunto de sadismos sofisticados no qual o perdão é destaque.  Uma sutileza a mais e a armadilha se realiza. Uma construção prévia de inércia compassiva. Porém… Eu? Eu não! Eu não me sujeito a situações de risco. Aquele turbilhão… Veio e me arrematou. Sim, soprei um pouco mais. No entanto, sua compreensão é sobre-humana e, silenciosamente, me torturou.

De fato, o instrumento mais avançado do egoísmo que tive a honra de experimentar em gostos adocicados. Você veio, olhou e com palavras e lágrimas foi de uma sinceridade digna de troféu… Que fardo! Antes me xingasse, expusesse os defeitos insolúveis da minha pessoa, desqualificasse minha respiração! Cuspisse na minha cara e nunca mais me ligaria perguntando como foi meu dia.

Não diga que está tudo bem. Que a vida continua e seremos adultos para entender… Escrota! Nesse seu jogo, eu já perdi por antecipação. Essa sua obstinação… Pela perfeição… Obriga-me! Compele-me a me sentir além da inferioridade. Incapaz de manter qualquer relação humana com decência. Errei e assumo. Agora é um “adeus e que seja feliz”.

 

 

(do conto Inefável Solilóquio – Juliana dos S. de A. Sampaio)