Arquivado em: Conto
Essa é sua última chance.
Esse era seu argumento ao telefone para que nos encontrássemos novamente depois de algumas semanas que estávamos separados. Sua voz soava como uma telefonista treinada, que tinha repetido as palavras a quantidade suficiente de vezes até que seus dedos que tampavam os ouvidos, pois lhe dava maior concentração, doessem e ficassem adormecidos. Concordei, ainda que imagens especulativas estivessem a rir da minha apreensão e, por isso mesmo, se tornavam cada vez mais especulativas e dramáticas. Marcamos. Cinco horas no café da avenida.
Ela estava vestida adequadamente para alguém da sua idade. Um assunto polêmico no entremuros do nosso jovem falecido mundo de exatos 773 dias. Sóbria em um vestido de inverno. Talvez mais atraente pelo que escondia sob o manto pesado. Calada, ela me disse “Oi”. De sorriso fechado, abriu levemente o lábio e perguntou “Tudo bem?”. Seu cumprimento era como uma mensagem telepática, algo não produzido por certas cordas penduradas em sua garganta. As palavras não vieram úmidas, mas secas, metálicas. Um zunido do ouvido que apareceu como uma obrigação social de cumprimentar as pessoas, mesmo aquelas que a tinham abandonado na rua de madrugada depois de uma discussão intermitente.
Mantendo-se calada, ela pegou de leve na minha mão. Não sei como ela a achou, pois minhas origens de italianos com espanhóis impediam que elas ficassem paradas enquanto falava. Não paremos de falar. Continue assim, pois ela pode aproveitar o silêncio para novamente invadir meu cérebro com suas frases metá… Ela abriu a palma da minha mão e, com os dedos, percorria as linhas. Se acreditasse em esoterismo, talvez cresse que ela estaria a amaldiçoar lentamente cada linha minha, a da vida, do amor, do destino e tudo mais, mas não. Ela não estava com o semblante enrijecido ideal para tal tipo de trabalho, estava completamente tranqüila.
Seu gesto de carinho me lembrou da única vez que estivemos separados antes daquele nosso fim de fato. Ela iria viajar durante um pouco mais de um mês a negócios. Era essencial para seu crescimento profissional, mesmo com a profissão duvidosa de curadora de artes de rua. Assim me dizia no aeroporto quando decidia que dali a pouco pegaria na minha mão para falar de coisas sentimentais. Ela descolou dedo a dedo minha mão de suas têmporas, abriu a palma, cheirou-a e a coloco sobre o lado esquerdo de seu peito. Depois fechou meu punho e murmurou coisas inaudíveis. O que você disse? Disse para você guardar o que eu te dei. Dei uma risada leve e um canário assobiou essas bobas músicas românticas. De uma elegante donzela de folhetim do século XIX, passou para traços corpulentos de uma diva de cinema do século XX e abriu novamente a palma de minha mão. Deixou que ela ficasse alojada um pouco abaixo do umbigo. Disse que nesta forma, eu também poderia lembrar dela se quisesse. Gargalhou e um veludo quente fez a volta no meu corpo. Estremeci. Ao pé do ouvido, disse que gostava de ser assim, sentimentalmente descarada e sutilmente safada.
Você vai guardar o que eu te dei?
Ela continuava a brincar com a minha mão, mas pelo menos agora a deixou descansando na mesa do café. Você perdeu o que eu te pedi para guardar. Era exatamente isso o que eu gostaria de ter perguntado aquele dia… O que você pediu? Ela retirou tudo do espaço, corpo, alma, oxigênio, dióxido de carbono, luz do olhar, gestos e seus significados. Parecia que ia chover lá fora ou talvez queria que estivesse, assim, cinza e tempestuoso, pois poderia lhe dizer que estava atrasado, que poderíamos nos encontrar outro dia, que… Ela parecia pronta para esticar as pernas e ir embora. Você pega essa sua mão e enfia naquele lugar. Ouvi os saltos de seu sapato fazerem sons com o chão de concreto que parecia uma marcha fúnebre se distanciando cada vez e se dedicando toda a mim. Ela voltou. Não é para fazer o que você está pensando. É para você tampar esse buraco negro que engole tudo e perde as coisas que os outros te pedem para guardar, seu filho da mãe!
Juliana dos S. de A. Sampaio
Ps: Isso é o que se gera quando são intercalados Alan Pauls, Nelson Rodrigues e devaneios de madrugada.
Arquivado em: Ao Público
Tenho percebido o quanto as pessoas chegam ao blog por causa de suas pesquisas nos sites de buscas pelo adjetivo inefável e o substantivo solilóquio. Assim, para ajudar aqueles que muito movimentam o meu mal visitado blog, decidi escrever finalmente suas definições.
I.ne.fá.vel
adjetivo comum de dois gêneros
1) Que não pode ser expresso verbalmente; Indizível, indescritível.
2) É um termo utilizado identificar algo de origem divina ou transcendental e com atributos de beleza e perfeição tão superiores aos níveis terrenos que não pode ser expresso em palavras humanas. Por esta razão algumas seitas e religiões utilizam o termo inefável para representar a divindade máxima dentro de uma hierarquia. Os Gnósticos o chamam assim para diferencia-lo do Deus do cristianismo e do judaísmo. Para eles o Inefável deu origem a Sofia e esta, conseqüentemente, ao Demiurgo e aos todos Arcontes.
Etimologia
Grego: Da palavra anekdiegetos.
So.li.ló.quio
substantivo masculino
1) Ato de alguém conversar consigo próprio;
2) Rubrica: Literatura, teatro. Recurso dramático ou literário que consiste em verbalizar, na primeira pessoa, aquilo que se passa na consciência de um personagem. Opõe-se ao monólogo interior, porque o personagem, no solilóquio, articula os seus pensamentos de forma lógica, coerente.
Etimologia
Latim: Soliloquìum, palavra cunhada por santo Agostinho (354-430) para o seu Liber Soliloquium. Do latim solus (sozinho) + loqui (falar).
Fontes:
Wikipedia.org
Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa
Eu diria que o adjetivo que dá qualidade ao substantivo e a interação entre ambos gera um significado complexo e ambíguo. Poderia resumir por silêncio e solidão. Ou impotência e vontade, comunicação e censura. Escolha ao seu bel-prazer.
Juliana dos S. de A. Sampaio
Arquivado em: Desabafo
Vamos lá às contas. Devo ter uma memória musical de 10 mil músicas e uma lista imensurável de bandas e artistas que eu devo fazer o download da discografia. São 424 filmes vistos e 192 que eu deveria ver. Meros 79 livros lidos desde que eu anoto, isto é, desde os 14 anos, e mais uns 50 para um futuro próximo… Uns dois, três anos. Sim, sim. Vamos ver…
Ah! Eu preciso fazer uma confissão: Música, cinema e literatura são os três tipos de drogas que eu mais uso. Corrida também é um vício, mas não vai entrar nessas linhas porque, como vocês vão entender mais tarde, ficaria fora de contexto. Então, considero-as como drogas porque elas são o melhor meio para mim de se afastar da realidade, de construir um mundo só meu, com tragédias e alegrias que transbordam as vinte e quatro horas de uma universitária sem muitas coisas para se fazer, se focar… O que estou dizendo? Que absurdo… Eu tenho demais para fazer, por isso mesmo não me satisfaço com o tempo permitido para mim pelo, cof, capitalismo selvagem, cof… Ir além, viver mais, em épocas diferentes, em lugares diversos, em corpos ilimitados.
Tenho listas que parecem que nunca diminuem, mas se reproduzem como roedores em terras férteis da Ucrânia! Eu leio um livro da lista, compro outro e já anoto uns dois! Vejo um filme, anoto outro e assim sucessivamente… O vício não tem cura. Também não tem como enfrentar escassez de material… No quesito musical, quando descubro uma banda ou artista baixo um álbum, depois a discografia completa e a escuto enquanto enfrento as cartas do paciência-spider ou os ônibus da metrópole. No que diz respeito aos filmes, a questão é um pouco mais complexa. São listas e listas por diretores, atores, roteristas, movimento artístico e até mesmo nacionalidade. Alugo seis por três e passo quase uma semana vendo um filme por dia, às vezes até dois. Quando acaba o filme, eu desligo todos os aparelhos, vou à cozinha pegar um copo d’água que levo até a criado-mudo para eu beber enquanto leio algum livro estirada na cama. A capa reluzente, o cheiro do papel… Esse é de um autor latino-americano conhecido, essa de uma autora brasileira, esse ganhou o último Nobel, esse é um infanto-juvenil que virou filme… Um em seguida do outro, sem descanso. Parar? Dar um tempo? Não, pois o vício não permite.
Ai ai, sabe, querido leitor, o porquê de eu estar aqui escrevendo sobre esses meus excessos? Porque eu acabei de ler um Harry Potter, cof, e estou com síndrome de abstinência. Comprei O Passado, do Alan Pauls pela Internet há pouco tempo, mesmo tendo aqui ao meu lado La Nausée do Sartre e Hard Times do Dickens… E o livro só vai chegar daqui a oito dias! Oitos dias! Vou sonhar, ter delírios que meus dedos percorrem páginas e as viram sem cessar… Colocam marcadores por todos os cantos da casa. Para apaziguar, vi o filme A Scanner Darkly. Depois, para minha desgraça, descobri que foi baseado em um livro de mesmo título cujo autor também escreveu Minority Report. Sacrilégio! Imperdoável! Para a fogueira! Eu vi os filmes antes, ANTES, de ler a maldita, ou bendita, brochura. Odeio quando isso me acontece. Bem, não é à toa que comprei O Passado. Umas semanas atrás, assisti ao trailer do filme que o Hector Babenco fez baseado no livro. Como o filme pode estrear a qualquer momento, não posso estar desprevenida. Já fiz isso com os Harry Potter da J. K. Rowling e À Sangue Frio do Truman Capote. Fiz também para ver uma peça de teatro baseada em Crime e Castigo do Dostoiévski. Igualmente, deixo de ver filmes por causa disso. Não quero, não posso ter meus olhos expostos ao Anna Karenina, Memórias de Uma Queixa ou Bonequinha de Luxo.
Ah… Eu quero uma casa forrada de livros. Algo como uma biblioteca com home thether e mini system. Ou um ser humano para me tirar desse mundo de fantasias… ALGUÉM LIGA NO MEU CELULAR!
Juliana dos S. de A. Sampaio
Be afraid of the lame
They’ll inherit your legs
Be afraid of the old
They’ll inherit your souls
Be afraid of the cold
They’ll inherit your blood
Après moi, le deluge
After me comes the flood
Après Moi – Regina Spektor
E abri os olhos para reverenciar o preto do teto. Era estafa de estar sempre a ver o preto das pálpebras. Olhos de ameixas maduras estáticas, besouros brilhantes que vagavam na quinta marcha, assim como meus pensamentos. O relógio digital piscava em vermelho que eram vinte horas de acordo com os convencionalistas… O vermelho deixa qualquer um com uma beleza irrecusável. Lembra-me das esquinas cheias de damas e camas cheias de gente… Cheias. E a minha tinha um vazio denso que fazia umas ondulações no colchão. É muito cedo.
De fato, querido e desconfiado leitor, eu tinha aberto meus olhos para ver o teto. Não. Não meramente o teto: o preto do teto. Acredite em mim, estava realmente tudo preto, exceto pelo vermelho conjurado em números vinte e alguma coisa do relógio, exceto pelo branco das paredes que ainda exalavam tinta. Alguns dias atrás tinha pintado umas paredes como impulso de renovação. Mas, você sabe como é, uma passada de mão, uma camada tosca de tinta barata. As janelas estão fechadas.
Afe, basta. Meu peito tinha estufado com a inspiração do ar pestilento. Não podia ser melhor. Inclinei o tronco para contar o preto entre as falanges dos dedos dos pés, para sentir o preto entre as coxas. O mistério de tudo que era preto em mim. Ou seja, o que não era. Minha mão coletava o suor da pele como aquelas matronas que reclamam do pó nos móveis. Não que eu seja um móvel, mesmo considerando alguns que minha figura psíquica-física-social se encaixava bem na imagem de um cabide. Pois, sim. Meu corpo como um mero cabide de roupas. Bando de frouxos. Ah, vou terminar assim, resumir assim: bando de frouxos. Acho que a porta está destravada para que entrem.
Sem identidade, sexo, história, matéria ou metafísica. Gargalhadas viriam a calhar. Mas o preto do teto absorveu tudo que eu falo, e as gargalhadas, calado. Vou procurar o que quero no meu ser. Então. Meu self. Self selfrídio. Selfrígido. Boa, selfrígidos. Anota aí essa palavra do texto para contar para os seus amigos no bar, no ombro de alguém, para preencher os silêncios que somente grilos sabem fazer: Selfrígidos. Átomozinhos incomunicáveis, bebês da sociabilidade, gente sem calos por temor. Agora vi que o quarto tem uma inclinação sutil.
Eu abriria novamente os olhos, se eles já não estivessem escancarados. O preto do teto sussurrou alguma coisa. Você ouviu? Disse para que eu transcenda, supere, me emancipe. Responderia que além do que Lispector escreveu sobre o ato de comer baratas – bem além mesmo -, eu me devoraria. E acrescentaria o deleite no ato. Porque não há nada mais asqueroso, limitado e desprezível do que esses nossos eus. Esses eus que andam sem poder se esbarrar mais um no outro. Ilusiorealmente, só tomando remédio. Ontem, é engraçado… Presta atenção, não é piada, é algo que eu li pichado em um muro na Paulista. Estava escrito assim: Os antidepressivos vão parar de funcionar. Quantas lamúrias, suicídios e assassinatos passionais. Não vamos quebrar o consenso… O sofá fica melhor na sala, mesmo que dentro desse reles quadrilátero ele me ofereça uma visão privilegiada do preto do teto.
Na sala, senta, espera e se engana, mané.
Juliana dos S. de A. Sampaio
Arquivado em: Poesia
Sem a convergência dos braços impotentes
Apontando os velhos indicadores
Resgata gestos indecentes
A soberania de todas as dores.
Com os pés cravados pela memória
Situando fragmentos da perdição
Escava ampla clarabóia
A gelada brisa em evocação.
Velozmente agiria aquele que busca
O metafísico na matéria bruta
E, porventura, mantém eqüidistante.
Não era giz marcado.
Não havia nada ensaiado.
Enfim, o precioso instante.
Juliana dos S. de A. Sampaio