Be afraid of the lame
They’ll inherit your legs
Be afraid of the old
They’ll inherit your souls
Be afraid of the cold
They’ll inherit your blood
Après moi, le deluge
After me comes the flood
Après Moi – Regina Spektor
E abri os olhos para reverenciar o preto do teto. Era estafa de estar sempre a ver o preto das pálpebras. Olhos de ameixas maduras estáticas, besouros brilhantes que vagavam na quinta marcha, assim como meus pensamentos. O relógio digital piscava em vermelho que eram vinte horas de acordo com os convencionalistas… O vermelho deixa qualquer um com uma beleza irrecusável. Lembra-me das esquinas cheias de damas e camas cheias de gente… Cheias. E a minha tinha um vazio denso que fazia umas ondulações no colchão. É muito cedo.
De fato, querido e desconfiado leitor, eu tinha aberto meus olhos para ver o teto. Não. Não meramente o teto: o preto do teto. Acredite em mim, estava realmente tudo preto, exceto pelo vermelho conjurado em números vinte e alguma coisa do relógio, exceto pelo branco das paredes que ainda exalavam tinta. Alguns dias atrás tinha pintado umas paredes como impulso de renovação. Mas, você sabe como é, uma passada de mão, uma camada tosca de tinta barata. As janelas estão fechadas.
Afe, basta. Meu peito tinha estufado com a inspiração do ar pestilento. Não podia ser melhor. Inclinei o tronco para contar o preto entre as falanges dos dedos dos pés, para sentir o preto entre as coxas. O mistério de tudo que era preto em mim. Ou seja, o que não era. Minha mão coletava o suor da pele como aquelas matronas que reclamam do pó nos móveis. Não que eu seja um móvel, mesmo considerando alguns que minha figura psíquica-física-social se encaixava bem na imagem de um cabide. Pois, sim. Meu corpo como um mero cabide de roupas. Bando de frouxos. Ah, vou terminar assim, resumir assim: bando de frouxos. Acho que a porta está destravada para que entrem.
Sem identidade, sexo, história, matéria ou metafísica. Gargalhadas viriam a calhar. Mas o preto do teto absorveu tudo que eu falo, e as gargalhadas, calado. Vou procurar o que quero no meu ser. Então. Meu self. Self selfrídio. Selfrígido. Boa, selfrígidos. Anota aí essa palavra do texto para contar para os seus amigos no bar, no ombro de alguém, para preencher os silêncios que somente grilos sabem fazer: Selfrígidos. Átomozinhos incomunicáveis, bebês da sociabilidade, gente sem calos por temor. Agora vi que o quarto tem uma inclinação sutil.
Eu abriria novamente os olhos, se eles já não estivessem escancarados. O preto do teto sussurrou alguma coisa. Você ouviu? Disse para que eu transcenda, supere, me emancipe. Responderia que além do que Lispector escreveu sobre o ato de comer baratas – bem além mesmo -, eu me devoraria. E acrescentaria o deleite no ato. Porque não há nada mais asqueroso, limitado e desprezível do que esses nossos eus. Esses eus que andam sem poder se esbarrar mais um no outro. Ilusiorealmente, só tomando remédio. Ontem, é engraçado… Presta atenção, não é piada, é algo que eu li pichado em um muro na Paulista. Estava escrito assim: Os antidepressivos vão parar de funcionar. Quantas lamúrias, suicídios e assassinatos passionais. Não vamos quebrar o consenso… O sofá fica melhor na sala, mesmo que dentro desse reles quadrilátero ele me ofereça uma visão privilegiada do preto do teto.
Na sala, senta, espera e se engana, mané.
Juliana dos S. de A. Sampaio
Daughter:
Time keeps moving on
Friends, they turn away
I keep moving on
But I never found out why
I keep pushing so hard the dream
I keep trying to make it right
Through another lonely day
Mother:
Dawn has come at last
Twenty-five years, honey just in one night.
Well, I’m twenty-five years older now
So I know we can’t be right
And I’m no better, baby
And I can’t help you no more
Than I did when just a girl
Daughter:
But it don’t make no difference, baby
And I know that I could always try
It don’t make no difference, baby
I better hold it now
I better need it
I better use it till the day I die
Mother:
Don’t expect any answers, dear
For I know that they don’t come with age
Well, ain’t never gonna love you any better, babe
And I’m never gonna love you right
So you’d better take it now, right now
Daughter:
But it don’t make no difference, babe
And I know that I could always try
There’s a fire inside everyone of us
You’d better need it now
I got to hold it
I better use it till the day I die
Mother:
Don’t make no difference, babe
And it never ever will
I wanna talk about a little bit of loving
I got to hold it, baby
I’m gonna need it now
I’m gonna use it, say
Don’t make no difference, babe
Ah honey, I’d hate to be the one
I said you’re gonna live your life
And you’re gonna love your life
Or babe, someday you’re gonna have to cry
Yes indeed, yes indeed, yes indeed
Ah, baby, yes indeed
Daughter:
I said you, you’re always gonna hurt me
I said you’re always gonna let me down
I said everywhere, every day, every day
And every way, every way
Mother:
Honey won’t you hold on to what’s gonna move
I said it’s gonna disappear when you turn your back
I said you know it ain’t gonna be there
When you wanna reach out and grab on
Whoa babe
Oh but keep trucking on
Kozmic Blues – Janis Joplin